Atualizada às 10h30...
A Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor) deflagrou, na manhã desta quarta-feira (28), a Operação Desfalque contra dois ex-gerentes do Banco do Brasil e a esposa de um deles, suspeitos de envolvimento em um esquema de fraudes bancárias que teria causado prejuízo de R$ 4,4 milhões à instituição financeira.
Segundo as investigações, os suspeitos teriam realizado saques em aproximadamente 63 contas correntes, a maioria vinculada a beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) já falecidos.
Durante a operação, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em Teresina e Goiânia (GO). Na capital piauiense, foram apreendidos cerca de 38 cartões bancários de terceiros. As equipes também apreenderam celulares, notebooks e veículos, que serão analisados no decorrer das investigações. Não houve prisões.
Segundo a delegada Bernadete Santana, responsável pelas investigações, os dois ex-gerentes utilizavam o acesso privilegiado aos sistemas do Banco do Brasil para consultar saldos, modificar dados cadastrais, alterar senhas e emitir novos cartões bancários. Dessa forma, conseguiam movimentar contas que estavam inativas há longos períodos, sem a necessidade de autorização dos titulares ou da participação de pessoas que se passassem por eles.
"Dois ex-gerentes teriam realizado fraudes bancárias utilizando acessos privilegiados, alterando senhas e emitindo novos cartões de aproximadamente 63 contas correntes vinculadas a beneficiários do INSS, a maioria deles já falecidos. Por meio desses acessos privilegiados, eles realizavam saques dessas contas bancárias", explicou.
Os suspeitos identificavam contas com saldo disponível e sem movimentação financeira. Após consultar os dados dos titulares, realizavam alterações cadastrais e emitiam novos cartões e senhas para retirar os valores em caixas eletrônicos de diferentes agências no Piauí.
"Como eles tinham esse acesso privilegiado aos dados cadastrais, verificavam os saldos, os extratos e os valores de contas que não eram movimentadas. Então, alteravam os dados e emitiam novos cartões. Com esses cartões, iam até os caixas eletrônicos de diversas agências aqui no Piauí e realizavam saques", detalhou.
A delegada explicou que a maioria das contas pertencia a beneficiários do INSS que já haviam falecido. Em alguns casos, os valores permaneciam depositados enquanto os bens dos titulares passavam por processos de inventário.
"Quando a pessoa falece, deixa a conta. Às vezes, está em processo de inventário, e a conta fica parada. Então, eles utilizavam essas contas que não apresentavam movimentação financeira. Faziam as alterações cadastrais, emitiam um cartão, criavam uma nova senha e realizavam os saques diretamente nos caixas eletrônicos", afirmou.
As investigações apontam que as fraudes começaram em janeiro de 2023 e continuaram até 2025, durante um período de aproximadamente dois anos. Embora os saques fossem realizados em agências do Piauí, as contas atingidas pertenciam a titulares de diferentes estados do país.
Saques eram realizados de forma gradual
Segundo a delegada, os investigados não retiravam necessariamente todo o saldo das contas em uma única operação. Os valores eram sacados gradualmente, em diferentes dias, o que permitia a retirada de quantias elevadas ao longo do tempo.
Em um dos casos identificados, uma conta apresentava saldo de aproximadamente R$ 100 mil, valor que teria sido retirado por meio de saques sucessivos.
"Um dos titulares das contas tinha em torno de R$ 100 mil. Então, todo esse valor era sacado de forma gradativa, em quantias de R$ 2 mil e R$ 3 mil, no decorrer de vários dias. A investigação apura que a conduta criminosa começou em 2023 e terminou em 2025", relatou.
A polícia também obteve imagens de câmeras de segurança que, segundo a delegada, mostram os investigados realizando saques em agências bancárias. Um dos ex-gerentes foi identificado utilizando um terminal de autoatendimento.
"Não era necessária a participação de uma terceira pessoa, porque eles eram gerentes da instituição financeira e tinham acesso privilegiado a essas informações, tanto aos saldos das contas quanto à possibilidade de realizar alterações cadastrais. Por isso, não necessitavam de terceiros. Eles mesmos realizavam os saques. Temos imagens de câmeras de segurança que apontam a presença deles nas agências realizando os saques. Inclusive, um deles foi identificado no próprio caixa de autoatendimento", acrescentou.
Esposa de ex-gerente também é investigada
Além dos dois ex-gerentes, a operação teve como alvo a esposa de um deles. Conforme as investigações, a mulher teria participado diretamente da retirada de valores das contas bancárias, realizando saques juntamente com o marido.
A participação dela foi identificada após a análise de informações obtidas por meio da quebra de sigilo bancário autorizada pela Justiça.
"De acordo com a apuração realizada, a esposa também participava do esquema. Ela realizava saques juntamente com o esposo, no caso, o ex-gerente, e isso foi verificado por meio da quebra de sigilo bancário que solicitamos", afirmou a delegada.
Os dois ex-gerentes trabalhavam em agências do Banco do Brasil em Teresina e já foram demitidos da instituição financeira. Um deles passou a residir em Goiás após o desligamento, motivo pelo qual parte dos mandados foi cumprida naquele estado.
"Os dois eram funcionários do Banco do Brasil, de agências aqui de Teresina. Um deles não reside mais aqui, mora em Goiás, e ambos já foram demitidos da instituição financeira", informou.
Sobre a possibilidade de os investigados terem atuado conjuntamente ou de um deles ter continuado as fraudes após o desligamento do outro, a delegada afirmou que essas circunstâncias ainda estão sendo apuradas. "Atualmente, não podemos afirmar se existia uma ligação entre eles, mas essa informação será averiguada no decorrer da investigação", declarou.
A delegada também informou que, até o momento, não foram identificadas fraudes praticadas em Goiás. Segundo ela, o investigado, que atualmente reside no estado, trabalhava em Teresina e se mudou após ser demitido.
Banco do Brasil identificou irregularidades e comunicou à polícia
A investigação teve início após o próprio Banco do Brasil identificar movimentações suspeitas durante um procedimento administrativo interno. A instituição encaminhou uma notícia-crime à polícia, que passou a apurar a atuação dos ex-funcionários e a movimentação dos valores.
Segundo a delegada, a descoberta das irregularidades não ocorreu por meio de denúncias de familiares dos titulares das contas, mas a partir de verificações realizadas pela instituição financeira.
"A própria instituição, de acordo com o procedimento administrativo realizado, identificou a fraude e encaminhou a notícia-crime. Não foi um terceiro", esclareceu.
O prejuízo estimado é de R$ 4.420.298,86. Conforme as investigações, a instituição financeira é considerada vítima do esquema, uma vez que era responsável pela guarda dos valores depositados nas contas. "A instituição financeira é responsável pela guarda dos valores quando o titular deposita uma quantia em sua conta. Portanto, o prejuízo é da instituição financeira", explicou.
Polícia apreendeu cartões e investiga participação de outras pessoas
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais apreenderam cerca de 38 cartões bancários de terceiros em Teresina, além de celulares, notebooks e veículos. Os materiais serão analisados para identificar possíveis novas movimentações financeiras e verificar se outras pessoas participaram das fraudes.
A delegada informou que a polícia já analisou os dados obtidos por meio da quebra de sigilo bancário e dará continuidade às investigações com base nos materiais recolhidos.
"Solicitamos a quebra de sigilo bancário, cuja análise já foi realizada. Agora, vamos analisar os materiais apreendidos, como celulares, notebooks, carros e cartões bancários de terceiros, em torno de 38 cartões. Vamos fazer essa análise e dar continuidade à apuração", afirmou.
Apesar do prejuízo milionário, nenhum dos investigados foi preso durante a operação. Segundo a delegada, nesta fase da investigação, foram solicitadas apenas medidas de busca e apreensão. "Não houve prisão. Como os dois já foram demitidos, não há necessidade de prisão neste momento da investigação", explicou.
A Justiça também determinou o bloqueio de contas bancárias dos investigados. A possível recuperação dos valores desviados e sua destinação dependerão do andamento do inquérito policial e de decisões judiciais.
"Houve o bloqueio das contas bancárias. Com o andamento da apuração e a conclusão dos procedimentos, a destinação dos valores será determinada pelo juiz. Como a investigação ainda está em curso, vamos verificar se existiam outras pessoas que estariam dando apoio a esse esquema criminoso", concluiu a delegada.
A polícia não descarta a possibilidade de envolvimento de outras pessoas no esquema.