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Criação de Gado e a Transumância no Norte do Piauí

Desde o século XVII, esta região passou a despertar interesses aos colonizadores portugueses, antigos criadores de gado que encontraram condições ideias para a prática da pecuária extensiva.

Redação Geral
Por: Redação Geral Fonte: F.A Filho
05/06/2026 às 13h52 Atualizada em 06/06/2026 às 14h42
Criação de Gado e a Transumância no Norte do Piauí
Ilustração

Criação de Gado e a Transumância no Norte do Piauí 

*Francisco de Assis Carvalho Filho

A conquista do território que atualmente corresponde ao Estado do Piauí, ocorreu com a implantação de fazendas de gado e desterritorialização do gentio, dos primitivos habitantes que ocupavam as extensas planícies aluviais nas margens dos caudalosos rios que drenam a porção setentrional do nosso estado, os inúmeros afluentes e subafluentes do rio principal da grande bacia hidrográfica do Parnaíba.

Desde o século XVII, esta região passou a despertar interesses aos colonizadores portugueses, antigos criadores de gado que encontraram condições ideias para a prática da pecuária extensiva. Pastagens nativas, fartura de fontes de água, brejos, riachos, rios e poços com “água rasa”, comprovando a potencialidade dos nossos mananciais e o forte aquífero resultante do acúmulo de água favorecido pela estrutura geológica local: rochas areníticas. O nível do lençol freático é permanentemente elevado, seja em qualquer estação do ano. Os nossos rios, apesar de serem temporários, não secam totalmente durante o período das estiagens, mantendo-se com água em determinados trechos, garantindo a sobrevivência do homem e dos animais, rios Poti, Longá, Sambito, Jenipapo, Surubim, Marathaoan, Piracuruca, Corrente, Jacareí, Pirangi, Riachão e vários outros . A grande diversidade de espécies (biodiversidade) dessa sub-região nordestina, o Meio-Norte, contribui também para a nossa pecuária, disponibilizando uma grande variedade de leguminosas, gramíneas e frutos silvestres que suprem a ausência de pastagens durante o período seco, a Faveira de Bolota, o Jucá, o Angico, o Pequi, a Unha de Gato, Capim Agreste, a Milhã e tantas outras que saciam a fome e mantêm os rebanhos para esperar o próximo período chuvoso. Essa rica biodiversidade na porção setentrional do Piauí é decorrente do ecotonismo existente entre os biomas em que está inserida, há uma transição entre a Caatinga e a Floresta Equatorial, aparecendo extensas áreas de carnaubais, cerrados, babaçuais e muita matas ciliares.

Muitas fazendas se instalaram nas margens desses rios, riachos, brejos e baixões criando gado bovino, caprino, ovino e equino que, juntamente com o extrativismo da carnaúba, do babaçu e do tucum foram a base da economia do Piauí colonial. Famílias pioneiras de fazendeiros luso-brasileiras desbravaram esse chão, os Lustosa, Castelo Branco, Pires, Pereira, Amorim, Fernandes, Silva, Almeida, Carvalho, Marques, Rodrigues, Aguiar, Mota, Fortes, Melo, Machado e tantas outras que miscigenaram-se com os Tremembés (Tapuias), Alongazes, Gameleiras, etnias indígenas que aceitaram trabalhar como vaqueiros das fazendas, atividade que exigia conhecimento profundo da região, coragem e grande intimidade com os animais, profissão que os nossos nativos se identificaram e executavam com destreza. Além das famílias luso-brasileiras e indígenas, havia também os africanos escravizados que, diferentemente dos escravizados da Zona da Mata nordestina, dos engenhos de açúcar, estes das fazendas do Piauí gozavam de uma relação de trabalho menos injusta e violenta, pois viviam campeando o gado e trabalhando sem as “correntes e senzalas” típicas dos engenhos do litoral.

Os rebanhos abriram as veredas do Piauí, conectando pastagens, fontes de água e currais. A organização espacial desta região é resultante dos caminhos e veredas abertas pelas patas dos bois e cavalos, quase a totalidade dos municípios do nosso estado surgiu de fazendas de gado. Esses rebanhos eram conduzidos sazonalmente para outras áreas obedecendo as estações do ano. Durante o período das secas, os vaqueiros tocavam os rebanhos para a região da Puba, zona do vale do Longá, do Piracuruca e do Corrente (Capitão de Campos, Cocal de Telhas, Piripiri, Piracuruca, Boa Hora, Boqueirão, Batalha e Barras), com vegetação predominante de cerrado, árvores de porte médio com galhos e troncos tortuosos, com muita sombra para amenizar as elevadas temperaturas dos meses mais secos do ano: setembro, outubro, novembro e dezembro. Pastagens de capim agreste, favas da Faveira de Bolota, Marfim, Jucá e Unha de Gato, além de muita água limpa dos rios, brejos e olhos d’águas. Com a chegada do período chuvoso, nossos bravos vaqueiros tocavam os rebanhos para a zona do Massapê (Batalha, Esperantina, Joaquim Pires, São José do Divino, Caxingó...) ou da Mata dos Cocais (Barras, Nossa senhora dos Remédios, Campo Largo, Porto, São João do Arraial, Esperantina, Matias Olímpio, União, Lagoa Alegre, Miguel Alves ...) ou dos tabuleiros de carnaúbas (Campo Maior, Cabeceiras, Nazaré, Jatobá, Sigefredo Pacheco, Boqueirão, Boa Hora, Castelo, São João da Serra, Altos, José de Freitas...). Essa transumância é praticada no norte do Piauí há séculos, demonstrando uma estratégia empírica, fruto do conhecimento dos nossos vaqueiros sobre às condições climáticas com o objetivo de otimizar a produção da nossa pecuária super-extensiva, reduzindo custos e evitando perdas com as secas ou “invernos” rigorosos.

Essa tradição de migrar com os rebanhos obedecendo as estações do ano, num movimento de ida e volta ainda é realizada da forma mais tradicional, com os vaqueiros montados com suas vestimentas de couro e o gado a pé, apesar de haver caminhões gaiolas, os tradicionais fazendeiros relutam e preservam esta cultura: a transumância dos rebanhos no norte do Piauí.             

 

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