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Médicos relatam medo e angústia com avanço da pandemia de Covid-19

A preocupação de contágio não é só com a falta dos equipamentos. Júlia Rocha conta que após atender um paciente suspeito é preciso desinfetar todo o consultório.

Redação Geral
Por: Redação Geral Fonte: Folha Press
28/03/2020 às 10h15
Médicos relatam medo e angústia com avanço da pandemia de Covid-19
Roberta Aline Cidade Verde

A médica mineira Júlia Rocha, 36, completou na manhã desta sexta (27) o seu quinto plantão de 12 horas em uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de Belo Horizonte (MG). Ela diz que toda a equipe está no limite.

"Num plantão normal, a gente já não almoça. Mas agora está num ritmo absurdo tão grande que a gente está deixando de tomar água para não precisar parar e ir ao banheiro."

Sua maior angústia é pensar na possibilidade de muita gente jovem e idosa morrer de Covid-19 por causa da sobrecarga e da falta de recursos dos serviços de saúde.

"Não vai ter respirador, não vai ter oxigênio, não vai ter medicação. E não vai ter corpo clínico ou de enfermagem para atender todo mundo. O número de médicos, de enfermeiros, está longe de ser o ideal para o que nos avizinha."

Ao mesmo tempo, tem se assustado com o número de jovens que têm chegado com quadros de insuficiência respiratória.

"São pacientes jovens que tiveram que manter a rotina de trabalho mesmo com sintomas clássicos da Covid-19. Há também pessoas com comorbidades [outras doenças associadas] que chegam instáveis dos seus processos de doença antigos", diz a médica de família.

Em São Paulo, a médica Jéssica Leão, 29, que atende em uma UBS e em um hospital municipal, conta que tanto os profissionais de saúde quanto pacientes estão à flor da pele.

"O clima está o mais tenso possível, de pânico mesmo. As pessoas estão discutindo, estão brigando. Quase todo dia tem guarda municipal ou polícia na UBS. Nesta semana, atendi seis pessoas com transtorno de ansiedade muito importante. Estamos vivendo também uma pandemia de saúde mental."

Segundo ela, muitos profissionais de saúde estão com medo de se contaminar e levar coronavírus para casa. Leão também se queixa da falta equipamentos de proteção individual (EPIs).

"Todos os meus colegas daqui e de outras regiões do país estão sofrendo com falta de máscaras, óculos, luvas, capotes descartáveis. A gente se expõe muito por conta disso. Eu mesmo estou usando máscaras que o meu marido arrumou para mim de outro hospital em que ele trabalha."

O médico Luis Vilela, 35, trabalha numa UBS em Apucarana e numa UPA de Londrina, ambas no Paraná. Nos dois serviços ele tem atendido pessoas com síndrome respiratória e vivido situações de muito estresse.

"Os funcionários estão com muito medo. Teve um dia que uma técnica de enfermagem me disse: 'Tem que pegar a veia mesmo? Não dá para dar dipirona via oral?'. Eu disse que não, o paciente estava muito desidratado'. Ela me olhou torto. As pessoas estão com receio do toque, do cuidar."

A preocupação de contágio não é só com a falta dos equipamentos. Júlia Rocha conta que após atender um paciente suspeito é preciso desinfetar todo o consultório.

"Estetoscópio, aparelho de pressão, termômetro, a maca em que o paciente sentou, o teclado e o mouse que a gente pegou, a impressora, enfim, tudo. Teoricamente, teria que ficar um tempo sem atender naquele local, mas não há consultório suficiente."

Os locais previstos para isolamento dos pacientes suspeitos também já não são mais suficientes. "O meu medo é que a gente não dê mais conta. Isso não está longe de acontecer, especialmente agora com essa mensagem para as pessoas voltarem às suas rotinas. A gente vai ter que negar atendimento para poder atender os casos mais graves."

O atendimento seria negado nos casos que não são considerados urgente mas que causam grande sofrimento ao paciente, como uma cólica renal.

"Se não tem critério de gravidade, mesmo que o paciente esteja urrando de dor na nossa frente, vamos ter que negar atendimento porque estaremos com outro paciente grave precisando de um respirador. Isso me angustia muito. Do começo da semana para cá, eu sou uma outra pessoa, mas estou encarando tudo isso como uma missão de vida."

Júlia Rocha diz que, se fosse pensar só nela e em seus familiares, já teria desistido. "Minha vontade é de esperar 14 dias e reencontrar a minha família. Mas eu sei que eu não posso fazer isso. Faz uma semana que eu não vejo a minha filha e o meu marido, que estão na casa da minha mãe. Não quero fazer drama. Esse é um processo que precisa ser vivido."

Luis Vilela também se sente triste com a mudança da rotina. "Minha mulher, meu dois filhos pequenos, o cachorro, o gato, todos vinham me receber na porta quando eu chegava do trabalho. Agora eu tenho que afastá-los. Tiro a roupa logo que chego, vou direto para o banheiro. Só depois me permito dar um beijinho na cabeça das crianças e afagar os meus bichinhos. E vou vivendo a vida", diz ele, com a voz embargada.

INICIATIVAS DÃO SUPORTE EMOCIONAL

Há várias iniciativas em curso para dar suporte emocional a distância aos profissionais de funcionários da saúde durante a pandemia de coronavírus. Crises de ansiedade, ataques de pânico, luto e síndrome de burnout são os diagnósticos mais frequentes, segundo a psicóloga Christiane Valle, coordenadora de telepsicologia na empresa Conexa.

Valle diz que a maior aflição de todos é saber que, ao atender os pacientes, estão colocando suas vidas e as de seus familiares em risco.

"A maior parte das empresas colocou seus funcionários em home office, mas para os profissionais de saúde essa possibilidade não existe. Eles estão à frente da batalha, atendendo os pacientes nos hospitais, coletando exames domiciliares, cuidando de casos graves e correndo riscos."

A psicóloga afirma que, ao ver um paciente grave, muitos desses profissionais temem que o mesmo aconteça com algum familiar no futuro. "Isso assusta muito. Além disso, alguns profissionais de saúde, por medo de contágio, pediram afastamento por meio de atestado. A carga de trabalho aumentou ainda mais."

Técnicas de meditação mindfulness e relaxamento para conseguir aliviar sintomas podem ajudar nessas horas. "A proposta é conseguir chegar no que está por trás de tudo isso que é o medo da morte", diz ela.

Médicos de família e comunidade lançaram uma série chamada Atrás da Máscara dentro do blog Causos Clínicos com relatos de profissionais que estão na linha de frente da pandemia de Covid-19.

Uma outra iniciativa é o SOS Apoio Emocional São Paulo, uma linha aberta e gratuita de ajuda psicológica não só para os profissionais de saúde, mas para qualquer pessoa que se se sentir em risco e precisa de suporte emocional neste momento. O telefone é o (11) 98863-0550. O horário é das 9h à meia noite.

A Sociedade Brasileira de Balint também está oferecendo grupos de suporte emocional gratuitos a profissionais de saúde durante a pandemia. "A ideia é tentar amenizar a situação e enxergar outras formas de lidar com isso tudo", diz Jéssica leão, secretária da entidade.

Michael Balint foi um psicanalista húngaro, que criou grupos terapêuticos voltados a profissionais de saúde discussões sobre a relação médico-paciente e experiências na prática clínica.

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